Pesquisar este blog

Poemas

 CONTOS, VERSOS BRANCOS E CANÇÕES CLANDESTINAS



“Todos estes sonhos são canções para as minhas amigas dormindo...”




Romance



Eu tinha que partir, mesmo com a canseira sob minhas costas e o frio percorrendo o corpo. À noite, para algum lugar, eu tinha que ir...


Em meio ao caminho passei na casa dele, que me esperava... A casa, em ruínas, envolta por árvores grandes e assustadoras, talvez porque fosse noite. Mas ela estava lá dentro, com sua alegria e sua dança.


Recebeu-me de com um sorriso, suas mãos tomando as minhas e erguendo-as para os lados: “Alegre-se, estamos juntas!” Um leve toque de nossas faces, fria e quente... do abraço percebera minha necessidade de amor.


Mas eu tinha que partir... Por que justo naquela noite? De tão serena que era, ela disse que iria esperar por mim, mesmo se fosse por uma vida inteira, ela ia me esperar.



Amanheceu. Entardeceu. Corri doida e com pressa à sua procura. A casa, por que durante o dia não consigo encontrá-la? Acordei, mas consegui voltar para vê-la.


Foram-se as pessoas. E o tempo. E o mundo. Tudo que era cansativo dissipou-se. A avenida vazia, o sol, e ela. E ela! Chamando-me de braços abertos, e com o sorriso sempre cheio de esperança.


Entrelaçamos as mãos, e o leve toque de nossas faces... Um beijo na testa... E uma tarde inteira só para nós.



* * *



Telefonema



Na manhã que custara a chegar, pus-me a desafiar o telefone. Minhas mãos, cerradas e furiosas, cederam lugar ao coração: Liguei.


Não sabia se iria conseguir explicar sobre as névoas que insistiam em rodear minha mente, e de meus lábios, trêmulos, saiu a dor traduzida em palavras.

De repente ouvi, e senti que havia ainda um céu sobre mim, e uma felicidade querendo fluir como uma menina que corre para o mar... Eu estava, meu Deus, chorando. E por amor.



* * *

Carícias Distantes



Um pensamento  ali escondido
Desejo reprimido
Onde o mundo faz de conta
Que nada é permitido


Um corpo  ali escondido
Desejo proibido
Os toques não satisfazem:
Só o amor alimenta

Um seio ali escondido
-Desejo mudo-
Protege o coração medroso
Nuvem de paz...

Um sexo ali escondido
Desejo adormecido
Onde a alma se encolhe,
Ávida e quente,
Triste e saudosa...

Um pensamento ali escondido


* * *


The Lovergirl


Era um estranho terminal rodoviário, onde passavam, por todos os lados, pessoas cujas tristezas cinzas tocavam o chão. Chegamos já sem rumo.

Ela chegou à confortável casa, onde dormia no quarto, sobre a cama macia, uma mulher. The Lovergirl estava no seu banho, tentando entender seu corpo: tão franzinho! Aquela parte ela sempre escondia. Sentia a água quente no corpo magro, ora branco, ora bronzeado, e tinha uma tira artesanal no punho esquerdo. Os cabelos quase grandes e finos pediam força.

Minhas amigas e eu fomos passear pela noite chuvosa. Queríamos enfeitar uma árvore com pisca-pisca, mas uma estranha senhora que passava por ali não quis deixar... Que chato, queríamos tanto enfeitar a árvore, queríamos tanto uma noite molhada de Natal!... Mas a senhora não quis deixar. Todas nós tomamos chuva.

The Lovergirl, toda nua e molhada, entrou silenciosamente no quarto, aproximou-se da cama, o quarto quase todo escuro...

Debruçou-se sobre ela. Tocou-lhe o corpo, os suaves músculos... Beijou-lhe os lábios. Ela, quase acordando, e The Lovergirl suplicando, em silêncio, para que o sono virasse desejo...

A senhora nos deixou em paz. Conseguimos enfeitar a árvore. Ficou tão bela... e tão feliz, que se pudesse falar, com certeza nos agradeceria.

E ela desejou The Lovergirl. A porta do quarto fechou-se. As luzes também.

Nós fomos embora felizes. Conseguimos ter a nossa única noite de Natal!...


* * *


Almas da Noite


De repente senti que a noite não seria mais a mesma. O sono e os sonhos tinham ganhado o espaço, e meu corpo já não era mais um só.

A madrugada nascia. Fiquei a vagar pela casa, como quem vigiasse a noite. Em um dos quartos, os pequenos irmãos se encolhiam com o frio em forma de sonho.

E ela veio ao meu encontro. Toda envolta em mistérios. Olhava-me como se me chamasse, no silêncio. Bem à minha frente, desceu sua veste. Minúsculas faíscas rodeavam seu corpo, uma aura prateada que assustava o escuro.

Ela me fez perder o pudor... nua fiquei. Suas mãos pousavam sobre o meu medo, tão mágicas que eu já não era mais eu mesma.

Deitamos lentamente sobre a colcha de veludo verde. Beijava-a, apertava-a contra meu corpo. Minhas pobres mãos percorriam caminhos cheios de mistérios e sem volta. Seus lábios... ah, sim, seus lábios pareciam querer sugar toda a minha energia, meu espírito...

Em casa todos dormiam profundamente.


* * *


“Não”


Eu simplesmente disse “não” à ela, dei-lhe as costas e meus olhos se preparavam para desaguar um oceano...


* * * 

O Baile


Combinamos o encontro. O caminho era árduo: barro, chuva e favelas N entrada, meninos e meninas se entregavam à ilusão.

A noite não estava bonita. Nem as pessoas. Nem o baile. Alegria era somente ter minha companheira a aceitar o meu abraço...

Entramos no baile. O escuro iluminava minha vontade de tê-la e a coragem de continuar abraçando-a no meio de tanta gente perdida. Não conseguia ver seu rosto. Mas isso não importava: Eu não estava só.

No embalo da música triste, luzes começavam a piscar por todos os lados, assustando-me. E o medo surgia. A minha companheira... Não sentia mais o toque de suas mãos... Não via mais o brilho de seus cabelos!

Seria a minha vez de entrar na dança da solidão? Que frio... que medo. 

E perdi o rosto dela...

E perdi-me na ilusão!

A noite, sem piedade, mostrou-me toda a sua fúria...


* * *


Mesmo se fosse


“Mesmo se fosse um beijo, apenas um beijo o princípio e o fim de tudo, seria um romance de séculos, o tudíssimo...”


* * *


Branca


Na escola, soou o sinal. Os estudantes saíram correndo, aproveitando enquanto era tempo da alegria de ir embora. Ela permaneceu na sua mesa de professora, Branca. Cansada, debruçou-se sobre a cadeira e deixou-me descansar em seu colo.

Branca era ela. A pele, a alma, sua vida. Toquei-lhe o ombro, e meu olhar suplicava por uma noite só de amor... Minhas mãos deslizavam para dentro do decote da blusa, quente... Branca. E linda. Lábios a sugar aquele cálido desejo.

Eu já não era mais nada além de um animalzinho faminto, a ser sacrificado no colo de uma deusa...


* * *


As Estudantes



Fim de aula, sol quente, saí pelas ruas com os cadernos na mão. Ela, a estudante, parou seu carro e sem nenhuma palavra, ofereceu-me carona. Sentei-me no banco de trás e pus o cinto de segurança (será para segurar meus desejos?)

Chegamos à casa. Era o começo ou o fim de um velho Natal, famílias por todos os lados, com tristezas nos olhos e copos na mão.

Ela levou-me até o quarto, onde estava outra estudante, deitada na cama. Aproximei-me, toquei seus cabelos, e sem nenhuma palavra seu olhar deu-me boas-vindas à sua cama.

…ramos três, em trocas de carícias e algum sentimento. Uma beijava-me as costas, os braços... Suaves toques em seios que às vezes me deixavam tonta e perdida. 

Cadernos e revistas voavam sobre o quarto, arrastando a realidade para fora dali. De quem será a mão que flutua entre minhas pernas? 

Um sereno abraço triplo protegia aquele estranho desejo, e o mundo já não mais nos pertencia, nem a festa, nem o quarto, nem a cama...

éramos apenas páginas de um livro esquecido.


* * *



Derrota de um Anjo


Correu para o quarto e começou a chorar repentinamente, e desesperadamente. Apagou a luz e se perdeu no escuro triste.


* * *


Pequena Estrela



Teu olhar sempre perdi
Para o sorriso da meia-lua


No seu corpo me abriguei
Da solidão profunda, azul...
Em tua mente fui pequena,
Pequena demais para preencher seu vazio


Não coube a lágrima;
E por tuas mãos, cálidas,
Fui devolvida ao céu...



* * *


Desembarque



“Fui sentindo aquelas coisas, alegria de vê-la, amor...”



* * *


Cássia



Rasgou o verbo direto
Tocou no palco sua rebeldia
Cantou o céu e as estrelas para o filho
Amou sua amante como se fosse a última
E de repente
O arranco inesperado
A dor sem ensaio
Cai a última rosa
Que apaga, para sempre,
A rouca voz.


* * *



Jardim de Infância


A fila para escovar os dentes na porta do banheiro era um desafio à sua paciência. Quem entrava brincava, jogava água, cuspes à distância... Uma verdadeira algazarra. Tinha pressa de conhecer o mundo.

“Minha roupa é vermelha...” ouviu uma das meninas dize. Que tola, pensava, a roupa dela é branca! Como pode não saber as cores do arco-íris, de um balão mágico? Sentia-se aliviada por não ser como as outras crianças.

A chegada da professora agilizava agora a fila. Esta sim era perfeita. Tinha o olhar meigo, acolhedor. “Professora, amarra meus cadarços?”

Até que não era tão ruim se passar por criança tola. A vida podia muito bem esperar. Por enquanto, tinha somente o mundo aos seus pés.


* * *


Teatro



Eu quis esquecer teu nome, o coração
Fugi com as estrelas, mas voltei.
Tento alcançar sua sombra,
Más há somente uma máscara
Que deixastes em meu olhar
Dois pontos distantes no mundo
(Tão longe!)
E qual é a chave? E quem abre?
(Eu te amo)
Ah, sim...
Estou livre agora.



* * *


O Caminho das Borboletas


“Eu caminhava pela floresta, o verde cheio de vida e as brisas brincavam na superfície do lago... Vi montanhas, de longe, e para lá queria ir voando, mas sempre quando eu tentava voar, sentia algo apertando o meu pescoço, proibindo-me de ir além daquelas montanhas...

Eu quis chorar, pois sentia que voe estava lá, me esperando. Foi quando vi borboletas amarelas surgindo por todos os lados, longe e perto de mim. Elas me levariam até você, eu sentia isso!

Mas as lágrimas foram reais demais para que eu não acordasse...”



* * *


Ângela



Esquecendo a vida
Seguindo o instinto
O arrepio revelava
O desejo, o medo
Mas era por ela
A deusa em chamas
Eu crescia pequena em seu olhar
Impossível fugir da pele ardente
E do néctar a jorrar de sua fonte
Enquanto minha alma encolhida no ventre
Gritava, em silêncio:

- Faz-me mulher!



* * *


Poema


Era a visita mais esperada da semana. Talvez de toda sua vida. Seu coração ardia, ansioso, até se chocar de vez com a batida na porta: era Lea.

Olhava-a com carinho, enquanto falava. Gostava de ouvi-la, dos gestos, as brincadeiras, e do sorriso que parecia revelar, a todo momento, a aura de sua paixão... Ela devolveu-lhe o caderno.

- Você escreve bem.

- Você também... Pude notar quando me deixou ler o que escrevia.

O sorriso agora era de gratidão. E continuou:

- Você escrevia porque sentia algo por alguém, não?

Silêncio.

- Parou de escrever?

A pergunta pairava no ar. Seu olhar para o chão confirmava a ferida que não cicatrizara. Queria tocá-la, mas poderia ser o fim daquela tarde tão precisa. E sabia também que, se falasse algo como o seu profundo amor por ela, a saudade seria dolorosa e eterna.

Daria o mundo para que ela ficasse um pouco mais, no momento da despedida com o abraço amigo. Sentia o quanto pesava seu coração ao vê-la partir, pois era nada ao seu alcance, e toda sua vida.

                                                                                                     * * *

Um comentário: